domingo, 31 de julho de 2011

A ratinha branca de Pé-de-vento e a bagagem de Otália

Juro que eu pensava que este livro de Jorge Amado era infantil, mas infantil igual a O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá ou A bola e o Goleiro. É, mas é menos que eu imaginava (na minha humilde classificação é infanto-juvenil. Acho que a adolescência é a mais privilegiada aqui). Isso não é bom nem ruim é apenas diferente do que imaginei, é surpreendente (na maioria das vezes gosto de ser surpreendida).De qualquer forma gostei muito de conhecer mais esta obra de Jorge Amado (Companhia das Letrinhas). Como todas as obras que o escritor dedicou a este público (já citadas anteriormente) ela pode, e deve, ser lida por todos, independente da idade.


A ratinha branca de Pé-de-vento e a bagagem de Otália não é exatamente um livro do escritor baiano mas uma adaptação que Mariana Amado Costa (neta do autor) fez do livro Os pastores da noite. Este foi o décimo segundo romance de Jorge Amado. Foi publicado em 1964. Os personagens desta história são homens e mulheres, na maioria das vezes pobres e sem emprego ou estudo que sobrevivem de bicos de todos os tipos. Mas o grupo conserva como “seu princípio moral, a amizade; sua lei, a alegria de viver” (p. 9).


A temática é bem corriqueira em Jorge Amado: Amizade (ler sobre amizade é sempre bom). É com muita graça (alegria mesmo) que este tema aparece nesta obra. E não só ele. Colaboração e respeito estão lá.


Mariana Amado Costa é neta do ilustre baiano a que eu me refiro neste post. Ela, melhor do que ninguém, pode afirmar que os temas levantados na obra eram de grande valia para o avô: “a força da amizade; a compreensão de que as pessoas nunca são simplesmente boas ou más, são humanas, com as complexidades e contradições inerentes a essa condição; a celebração da vida mesmo na adversidade” (p. 8).


Os personagens são adultos mas mostram o “profundo respeito por questões que são a essência da infância: a fantasia, o sonho, a brincadeira, a diversão” (p. 8). E isso é mágico! Uma coisa que achei interessante é que este é o segundo livro em que um dos personagens se destaca pelo seu conhecimento e, justamente por isso, ganha um certo destaque. Em Capitães da areia foi o Professor neste Eduardo Ipicilone. Outros detentores do conhecimento apareceram em outras obras, mas estes dois me chamaram a atenção porque, de alguma maneira, são procurados para ensinar, tirar dúvidas, etc.


Quem ilustrou, e o fez muito bem, foi a mineira de Belo Horizonte Marilda Castanha. Já não é a primeira vez que faz ilustrações para esta editora, mas é a primeira vez que a cito aqui.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

Como vocês podem ver este não está sendo um ano de muitas leituras, pelo menos de obras de ficção. Meus olhos estão concentrados em teóricos nem sempre fáceis e os textos que estou produzindo são bem mais acadêmicos do que os que publico aqui. Mas digamos que entre um texto e outro estou lendo algumas coisinhas que pretendo registrar neste espaço. Vamos a uma delas.

Que vida levava aquele sujeito que é visto trôpego pelas ruas, que não trabalha e aparentemente não tem família? Quem choraria a morte deste sujeito? Entre tantas outras coisas nas páginas desta obra de Jorge Amado estas são questões que nos conduzem.

A morte e a morte que Quincas Berro Dágua (Editora Record) é uma daquelas comédias bem construídas e para lá de inteligentes. Nela a crítica social, tão presente nas obras do escritor baiano, é um elemento para lá de presente. A obra é do final da década de 50, início da de 60 e é para lá de atual. Basicamente conta a história de um funcionário público que cansou da vida certinha de mulher (uma Jararaca, segundo o próprio Quincas), filha (que trilhava o mesmo caminho da mãe), emprego estável e reconhecimento por ser um funcionário exemplar. Quando deu um basta caiu na rua e se tornou o Rei dos vagabundos da Bahia, o cachaceiro –mor de Salvador, o filósofo esfarrapado da rampa do Mercado, o senador das gafieiras (p. 31-32).Contar que Quincas morreu não é contar o final é apenas o começo...

A história tem um narrador, mas quase sempre Quincas se mete e os diálogos entre o morto e os que velam seu corpo (ou pelo menos tentam) são muito engraçados.
Para quem quiser começar pelo filme ele já está por ai. Aliás, eu primeiro vi o filme para depois ler o livro. Lembrem-se sempre que o filme é uma adaptação. O livro não é tão linear como pode parecer o filme. Mas os dois são para lá de divertidos e boas opções para as curtas férias de julho.