segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Para conhecer o Brasil um pouco melhor

Roberto DaMatta é um antropólogo brasileiro conhecido (já citei ele no post do livro Dona Flor e seus dois maridos no mês de abril). Estes dias lembrei de um livro do autor que li há uns cinco anos (mais ou menos) e fui ao resgate (sério gente, é resgate mesmo!). O nome é O que é o Brasil?(Editora Rocco) e posso dizer que ajuda, e muito, a explicar o que e quem somos. Nossas qualidades e defeitos estão todos ali e numa linguagem super gostosa.

A obra é dividida em oito tópicos / capítulos. O primeiro faz uma breve apresentação do livro. Nele o autor começa dizendo que “para entender o Brasil é preciso estabelecer uma distinção radical entre um “Brasil” escrito com letra minúscula, nome de um tipo de madeira de lei ou de uma feitoria, um conjunto doentio e condenado de raças que, misturando-se ao sabor de uma natureza exuberante e de um clima tropical, estariam fadadas à degeneração e à morte; e um Brasil com B maiúsculo – um país, cultora, local geográfico e território reconhecidos internacionalmente – e também casa, pedaço de chão calçado com o calos de nossos corpos; Brasil que é também lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, muitas vezes sagradas.

Comunidade que, de tempos em tempos, celebra eventos exclusivamente seus, como o carnaval. Sociedade com valores próprios, que a tornam uma entidade viva, dotada de auto-reflexão: algo que se alarga para o futuro e o passado” (p.7). Só por esse início já acho que o livro vale ser lido.

Dos outros seis tópicos gostei de ler especialmente três: o que fala sobre a casa e a rua, outro sobre o racismo “à brasileira” (ou vocês pensavam que não existia) e o que se refere a nossa forma de chegar a Deus. Então vamos lá. Vejamos se consigo mostrar qual o motivo me fez gostar tanto do livro e em especial destes três pontos.

1. A casa, a rua e o trabalho: a casa é o local do amor, do respeito. Onde temos um rosto e somos reconhecidos pessoalmente. Na casa o tempo para “suspenso pelas anedotas, pelos casos e pelas intrigas” (p. 17).Na rua, no trabalho, batalhamos, somos um rosto e um corpo, somos impessoais. Não há amizade, não há reconhecimento, é a mais ‘dura realidade’. Fora de casa o tempo passa (como diria um personagem de novela ‘o tempo ruge e a Sapucaí é grande’). Sabe porque este item me chamou a atenção? Porque muitas vezes confundimos estes dois ambientes. Querem ver? Quantos de nós já não viu uma pessoa varrendo a calçada, limpando o jardim ou até mesmo estendendo roupa de pijama e pantufa? Quantas pessoas já não andaram pela rua sem a dentadura ou com toucas de cabelo (aquela que nós mulheres costumamos usar para fazer hidratação ou manter os cabelos lisos). É ou não é a mistura da rua com a casa, do público com o privado? Confesso que ri algumas vezes.

2.Um racismo “à brasileira”: o autor fala que o nosso racismo não é igual aos outros racismos espalhados pelo mundo. Tem um tipo que é propriamente brasileiro. Muitas pessoas acham que não (quantos brasileiros dizem não ter preconceito? Mas suas práticas nem sempre comprovam suas teses. Nosso preconceito, segundo o autor, não é racial e sim social, “o que tecnicamente é a mesma coisa” (p. 26) e continua dizendo que “ o preconceito velado é uma forma muito mais eficiente de discriminar, desde que essas pessoas ‘saibam’ e fiquem no seu lugar” (p.26)

3.Os caminhos para Deus: não preciso nem dizer o porquê desse capítulo ter me chamado a atenção. Vamos combinar que quanto a fé nós, brasileiros, somos de fato meio esquisitos (e o texto fala isso). Fazemos uma ceia de Natal e vamos ou assistimos a Missa do Galo e uma semana depois vamos comemorar a virada do ano na praia, de branco (e outras cores que nos trazem dinheiro, amor, paixão, saúde...). Nesta mesma praia pulamos sete ondas e até recebemos umas rezas, colocamos umas flores no mar etc. trocando em miúdos apelamos para todos os santos e deuses possíveis. Em resumo “somos um povo que certamente acredita mais no outro mundo do que num Deus autoritário e justiceiro, dono de mandamentos estanques e excludentes. E o outro mundo brasileiro é um plano onde tudo finalmente faz sentido” (p. 68).

Todos os capítulos deste livro não explicam de fato o Brasil, mas ajudam bastante. Sugiro, até, que este livro e O Português que nos pariu sejam lidos próximos um do outro (pode ajudar muito). Ambos nos ajudam a ver o Brasil de uma outra forma. E ver o Brasil com outro olhar é também nos ver de maneira diferente.

2 comentários:

  1. Tenho esse livro!!! É muito bom mesmo. Tão didático, mas sem ser superficial. Acho que deveria ser leitura obrigatória pra jovens e adultos. A gente entende tão pouco da nossa complexa terrinha.

    Obrigada pelas visitas no blog! Tava meio sumida, mas voltei. Agora tô com internet em casa.

    beijão

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  2. Que bom que estasi de volta. Estava com saudades. Sobre o livro realmente deveria ser melhor explorado por jovens e adultos antes de ficarmos espalhando por ai que entendemos tudo de tudo da nossa própria gente. Venha sempre. Um abraço.

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