sábado, 30 de outubro de 2010

Alice no País das Maravilhas

Na minha infância li muitos livros da Disney e não seria de estranhar que Alice fosse um deles. Me diverti muito com ele, mas só ouvi falar (e me dar conta) que existia um outro Alice, o original, digamos assim, já na faculdade (na segunda, é bom que se diga). Fiquei curiosa, mas não a ponto de procurá-lo em todos os lugares. Mas não tardou e estreou Alice nos cinemas, eu não vi ainda, mas, como quase sempre acontece, as livrarias ficaram cheias deste clássico infantil, em várias versões. Comprei uma, a da editora Cosacnaify, tradução de Nicolau Sevcenko, e corri para começar a ler. Mas a leitura não foi tão rápida como eu imaginava. Por vários motivos.

Nunca li uma viagem tão viagem na minha vida! Sério. Não que eu imaginasse que fosse diferente, afinal os personagens que eu lembrava não eram os mais normais deste mundo e também temos de concordar que o mundo infantil não é o mais regrado e o menos fantasioso que se tem notícias.

Talvez o melhor para mim tenha sido a parte final onde são apresentados os autores (Lewis Carroll, Nicolau Sevcenko e Luiz Zerbini) e o posfácio. Para mim os três deveriam estar no início por toda a explicação que dão da obra que foi lida.

Só um exemplo explicado no posfácio: por traz de toda a imaginação da história há a sátira ao mundo dos adultos (sua pompa, seriedade, preconceitos, intolerância, arrogância...). Lewis Carroll coloca de “ponta-cabeça a própria cultura vitoriana” (p. 152). Quando chega ao País das Maravilhas Alice tem de enfrentar personagens que representam um tipo ou uma instituição vitoriana.

Tem uma coisa que valeu muito a pena neste livro, além da viagem que o livro proporciona (aliás já deixa eu fazer uma pergunta para a minha professora: que livro não é literatura de viagem? Porque ler é viajar, certo? Eu sei já conversamos sobre isso em sala.): a ilustração, todas feitas com baralho. Segundo a apresentação do ilustrador, baralhos do mundo todo da coleção particular dele. É lindo!

sábado, 16 de outubro de 2010

A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar

Confesso que este foi o primeiro livro que fiquei em dúvida se deveria postar aqui ou no Futebol de Saias. Decidi usar aqui e lá. Minha vida, ultimamente, anda bastante cercada deste assunto: futebol.
Adoro livros de memórias. Normalmente eles registram pontos de vistas diferentes dos que vemos na mídia ou dos nossos próprios. Então os acho fantásticos. Este, A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar (Companhia das Letras) foi escrito por Armando Nogueira, Jô Soares e Roberto Muylaert nas vésperas da Copa de 94. Quase simbólico isso!

Quando o peguei na biblioteca, assim na primeira olhada, tive certeza que falaria da Copa de 50 (a primeira pós-Segunda Guerra e talvez a maior tragédia do futebol brasileiro), ela é a que não queremos lembrar, mas não entendi direito a que ninguém viu. Juro que pensei deve ser a de 1946, sem me dar conta que na década de quarenta simplesmente não houve Copa por causa da Segunda Guerra. Aí na contra capa estava explicado direitinho.

As Copas em questão foram escolhidas (e a de 58 não entrou, o que pode parecer estranho) justamente porque foram as duas Copas em que os três autores estavam presentes in loco. Além disso, a de 54, para os brasileiros foi tensa por causa das expectativas e decepção geradas pela de 50.

Os registros acabam, por exemplo, com injustiças que costumamos cometer com os nossos jogadores / técnicos. Falo aqui de Barbosa. O goleiro que é, ou foi, considerado o grande culpado pela perda do título em 50. Lembra também que o capitão da Celeste, Obdulio Varela, disse que se pudesse voltaria no tempo para poder dar a vitória ao Brasil. Conta-se que ele foi em uma churrascaria carioca naquela noite e que um brasileiro veio em sua direção. Mesmo com medo ele levantou. “O sujeito chegou junto a ele, olhou-o nos olhos, abraçou-o e começou a chorar em soluços” (p. 135). Foi ai que ele percebeu “que teria sido melhor perder aquela Copa, já que o significado da derrota para o Brasil era muito maior que a maior das euforias uruguaias” (p. 136).

Claro que são abordadas questões básicas do futebol brasileiro, como Pelé, e da sociedade brasileira, como o fato de em 50 o jogo de São Paulo ter a participação exclusiva , ou quase,de atletas paulistas e os jogos do Rio terem participação de cariocas.

Há ainda o registro do registro. Segundo Roberto Muylaert “do ponto de vista da imprensa local (da Suiça, no caso), foi de fato a Copa que ninguém viu” (p. 143) já que a divulgação foi mínima. Agora em uma coisa os três parecem concordar: a Copa de 54 foi a Copa sanduíche entre a que queremos esquecer, nossa maior tragédia :a de 50 e a nossa redenção e a que não fazemos a mínima questão de esquecer: a de 58. O livro conta curiosidades, ‘causos’ que são bem legais (particulamente aprendi muito sobre a Copa de 54). De certa forma nos faz entender um pouco mais o nosso país do futebol.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Para conhecer o Brasil um pouco melhor

Roberto DaMatta é um antropólogo brasileiro conhecido (já citei ele no post do livro Dona Flor e seus dois maridos no mês de abril). Estes dias lembrei de um livro do autor que li há uns cinco anos (mais ou menos) e fui ao resgate (sério gente, é resgate mesmo!). O nome é O que é o Brasil?(Editora Rocco) e posso dizer que ajuda, e muito, a explicar o que e quem somos. Nossas qualidades e defeitos estão todos ali e numa linguagem super gostosa.

A obra é dividida em oito tópicos / capítulos. O primeiro faz uma breve apresentação do livro. Nele o autor começa dizendo que “para entender o Brasil é preciso estabelecer uma distinção radical entre um “Brasil” escrito com letra minúscula, nome de um tipo de madeira de lei ou de uma feitoria, um conjunto doentio e condenado de raças que, misturando-se ao sabor de uma natureza exuberante e de um clima tropical, estariam fadadas à degeneração e à morte; e um Brasil com B maiúsculo – um país, cultora, local geográfico e território reconhecidos internacionalmente – e também casa, pedaço de chão calçado com o calos de nossos corpos; Brasil que é também lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, muitas vezes sagradas.

Comunidade que, de tempos em tempos, celebra eventos exclusivamente seus, como o carnaval. Sociedade com valores próprios, que a tornam uma entidade viva, dotada de auto-reflexão: algo que se alarga para o futuro e o passado” (p.7). Só por esse início já acho que o livro vale ser lido.

Dos outros seis tópicos gostei de ler especialmente três: o que fala sobre a casa e a rua, outro sobre o racismo “à brasileira” (ou vocês pensavam que não existia) e o que se refere a nossa forma de chegar a Deus. Então vamos lá. Vejamos se consigo mostrar qual o motivo me fez gostar tanto do livro e em especial destes três pontos.

1. A casa, a rua e o trabalho: a casa é o local do amor, do respeito. Onde temos um rosto e somos reconhecidos pessoalmente. Na casa o tempo para “suspenso pelas anedotas, pelos casos e pelas intrigas” (p. 17).Na rua, no trabalho, batalhamos, somos um rosto e um corpo, somos impessoais. Não há amizade, não há reconhecimento, é a mais ‘dura realidade’. Fora de casa o tempo passa (como diria um personagem de novela ‘o tempo ruge e a Sapucaí é grande’). Sabe porque este item me chamou a atenção? Porque muitas vezes confundimos estes dois ambientes. Querem ver? Quantos de nós já não viu uma pessoa varrendo a calçada, limpando o jardim ou até mesmo estendendo roupa de pijama e pantufa? Quantas pessoas já não andaram pela rua sem a dentadura ou com toucas de cabelo (aquela que nós mulheres costumamos usar para fazer hidratação ou manter os cabelos lisos). É ou não é a mistura da rua com a casa, do público com o privado? Confesso que ri algumas vezes.

2.Um racismo “à brasileira”: o autor fala que o nosso racismo não é igual aos outros racismos espalhados pelo mundo. Tem um tipo que é propriamente brasileiro. Muitas pessoas acham que não (quantos brasileiros dizem não ter preconceito? Mas suas práticas nem sempre comprovam suas teses. Nosso preconceito, segundo o autor, não é racial e sim social, “o que tecnicamente é a mesma coisa” (p. 26) e continua dizendo que “ o preconceito velado é uma forma muito mais eficiente de discriminar, desde que essas pessoas ‘saibam’ e fiquem no seu lugar” (p.26)

3.Os caminhos para Deus: não preciso nem dizer o porquê desse capítulo ter me chamado a atenção. Vamos combinar que quanto a fé nós, brasileiros, somos de fato meio esquisitos (e o texto fala isso). Fazemos uma ceia de Natal e vamos ou assistimos a Missa do Galo e uma semana depois vamos comemorar a virada do ano na praia, de branco (e outras cores que nos trazem dinheiro, amor, paixão, saúde...). Nesta mesma praia pulamos sete ondas e até recebemos umas rezas, colocamos umas flores no mar etc. trocando em miúdos apelamos para todos os santos e deuses possíveis. Em resumo “somos um povo que certamente acredita mais no outro mundo do que num Deus autoritário e justiceiro, dono de mandamentos estanques e excludentes. E o outro mundo brasileiro é um plano onde tudo finalmente faz sentido” (p. 68).

Todos os capítulos deste livro não explicam de fato o Brasil, mas ajudam bastante. Sugiro, até, que este livro e O Português que nos pariu sejam lidos próximos um do outro (pode ajudar muito). Ambos nos ajudam a ver o Brasil de uma outra forma. E ver o Brasil com outro olhar é também nos ver de maneira diferente.