quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Flicts: o mundo das cores

“O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores” (crônica O coração da cor, de Carlos Drummond de Andrade, publicada no lançamento de Flicts, em 1969).

Quase sempre, quando sou convidada para uma festa de criança, por exemplo, procuro levar para o pequeno anfitrião algo que nem todo mundo pensa em dar de presente de aniversário: livro. Não sei se já deu para perceber mas eu os adoro! :)

Flicts eu conheci assim. Vi a capa, o nome e o autor: Ziraldo, para mim não devia ser uma literatura ruim (afinal, um dos livros que mais marcou a minha infância foi O Menino Maluquinho). Quem me acompanhou na compra do primeiro presente deste tipo disse “realmente este livro é muito bom, fala de cores, bem interessante”. Acho que foram uns dois presentes com o mesmo título até que eu disse “agora chega! Quero um para mim!”.

Estava me enrolando para ler, não que não quisesse mas é que parecia que algumas coisas eram mais urgentes (estou falando aqui de textos teóricos mesmo). Dia desses, em uma noite mais tranqüila achei na ‘terra do nunca’, que é a minha sala de livros, o tal do Flicts olhando bem sério para mim! ‘Vais me deixar aqui muito tempo?’, ele parecia perguntar. Peguei-o. Li em menos de uma hora e foi uma experiência incrível. Não existem muitos desenhos como ilustração, são cores e formas que dão vida à história. São elas que ilustram o que as palavras dizem. Aliás, as palavras, de certa forma, também fazem parte da ilustração. Simplesmente genial! Não é a toa que encantou o editor Fernando de Castro Ferro que analisou o material levado pelo cartunista (aliás, só para comentar, a primeira de Ziraldo direcionado para o público infanto juvenil).

A edição que eu tenho (da editora Melhoramentos) comemora os quarenta anos de lançamento da obra por isso é rica em informações do livro como edições internacionais, comentários...

Uma coisa legal é que Ziraldo não esperava escrever para crianças, foi desafiado a isso. Fernando de Castro Ferro disse que publicaria uma coletânia com cartuns do artista se ele, antes, produzisse uma obra para crianças. Ziraldo disse que já tinha e que precisava de quinze dias para preparar os originais. Ele sabia que não teria tempo para preparar as ilustrações. Foi quando se deparou com um outdoor que mostrava uma foto do solo lunar (1969 ano de chegada do homem a lua). Bingo! Seis semanas depois dez mil exemplares do primeiro álbum infantil totalmente colorido do Brasil aparece para o público.

É simplesmente maravilhoso! Acho que meus presentes foram legais!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A Sociedade do Espetáculo

Ufa! Afinal, tempo para escrever sobre a última obra lida. Não a mais ficcional de todas mas por vezes a vontade que eu tinha era de estar em um romance de ficção científica dos mais barras pesados, porque eu até poderia levar para a realidade mas seria apenas uma ficção. Mas não foi o que aconteceu. Não foi mesmo. A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord (Contraponto) só não foi mais real porque faltou espaço e de tão real dava um grande nervoso.

O livro trata da sociedade em que vivemos. Só que ele escreveu na década de 60, mais precisamente 1967. É impressionante a atualidade e a forma como a mídia parece se utilizar da obra do francês para produzir tudo o que é veiculado. A orelha da edição que eu li tem a seguinte citação que a meu ver diz tudo o que é necessário para a ocasião: “quanto mais o tempo passa, mais atual se torna este texto, pois, como disse Jean-Jacques Pauvert, ‘ele não antecipou 1968, antecipou o século XXI’”.

O livro é dividido em teses e cada uma é uma ‘porrada no estômago’. É estranho querer se ver fora de um sistema em que é simplesmente impossível estar fora (pelo menos eu me sinto impossibilitada de). Pelo menos agora estou um pouco mais consciente disto.

Li porque 1) fazia tempo que queria; 2) era necessário para a aula. Dele partiu uma ótima discussão na aula da professora Heloísa (e um pequeno texto no futebol de saias).

Debord, como ele próprio disse, pode se “gabar de ser um raro exemplo contemporâneo de alguém que escreveu sem ser imediatamente desmentido pelos acontecimentos. Não estou me referindo a ser desmentindo cem ou mil vezes, como os outros, mas a nem uma única vez. Não duvido que a confirmação encontrada por todas as minhas teses continue até o fim do século, e além dele”. Nossa, até nisso ele teve razão!

Guy Debord morreu em 1994, segundo informações, foi uma escolha dele. Talvez suas observações tenham lhe dado uma visão nada legal da sociedade e de seu (nosso) papel na sociedade.

É isso. Talvez os próximos textos sejam mais pesados que os outros e talvez demorem um pouco mais para serem publicados. Desde já gostaria de pedir desculpas para os que entram aqui procurando ficção mas neste momento preciso colocar a angustia de algumas teorias para fora.