segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ensaio sobre a cegueira

Nunca entendi direito esta coisa de Nobel. Lembro que quando José Saramago ganhou o Nobel de Literatura em 1998 me pensei: tá, legal, mas qual foi o livro que ele escreveu que fez ele ganhar? Tempos depois entendi que quando alguém ganha um prêmio destes ele é contemplado pelo conjunto das obras e não por uma específica (e normalmente é pelo que ele já fez e não pelo que mostra ter vontade de fazer, mas isso é outra discussão que não cabe aqui).

A única coisa que sabia de Saramago era que ele é português e que entre as obras mais conhecidas dele estava o tal Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras) que aliás, como muitas obras de muitos autores por ai, tem um nome estranho e que nos faz pensar sobre o que se trata, como é o enredo. Há uns quatro anos recebi esta obra em casa, ela chegou nas minhas prateleiras pelo ‘enxoval’ do meu marido (quando casa-se junta-se as escovas de dentes, ganhamos problemas que não tínhamos antes mas também cresce o acervo bibliográfico).

Mas foi só depois que vi que o filme tinha sido lançado que me empolguei para ler o livro.

A obra é muito boa! É angustiante, densa, mas muito boa. Não tinha vontade de parar de ler. É extremamente intrigante. Afinal, porque apenas uma pessoa enxerga? Por que tanta gente está cega? Será que é cegueira física ou será que é uma cegueira moral, uma metáfora para dizer: o pior cego é o que não quer ver?

Na obra portuguesa percebi também (claro que eu já tinha percebido isso na vida real, mas parece que em ficção as coisas ganham outras proporções) que realmente para estados de emergência, de catástrofes, pandemias e tudo o que traga pânico, o Estado não está preparado para agir. Não há um grupo de gerenciamento de crises, um grupo que saiba como agir quando tudo parece fugir do controle. Estamos, nestes momentos, entregues a própria sorte.

Confesso que em alguns momentos (e nã foram um ou dois, foram vários) parei de ler no meio da página. Isso acontecia porque alguns momentos da obra são muito fortes (mesmo sendo descritos com alguma delicadeza). Eu sentia uma mistura de revolta, vontade de chorar e socar o travesseiro (para não dizer uma personagem do livro) ai, eu levantava e ia tomar água, comer uma maçã ou fazer qualquer coisa que me tirasse dali momentaneamente. E acho que esta é uma das mágicas dos livros: nos transportam para um lugar tão distante que pode ser lindo e ao mesmo tempo horroroso, mas de lá sempre podemos voltar.

Agora o mais engraçado: por ser uma obra portuguesa (de antes da reforma ortográfica) não tem tradução (obvio!) mas o texto é muito diferente do nosso português. As pessoas gramaticais, os ‘c’s em lugares que nós, brasileiros, não usamos faz tempo. Depois dele entendi perfeitamente a necessidade de se reformar tudo e dar um padrão para ela (mesmo sabendo que jamais falaremos e escreveremos igual aos cidadãos de nossa antiga metrópole).

8 comentários:

  1. Nunca li o livro só vi o filme.
    Tenho aquelas cenas asquerosas até hoje em minha mente. É para isso que servem os bons filmes, né?
    B-jou

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  2. É, e acho que os livros estão na mesma linha. Eu também tenho em mente cenas bem 'eca' na minha cabeça. Nossa quando lembro me dá uns arrepios.... Bjos

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  3. saramago é louco, umd ai te conto o porquê haha
    abraço

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  4. É louco, mas quem não é? Artistas para serem artistas devem ver a sociedade de uma forma que ela mesma não se vê e por isso precisa estar em outro mundo. Um abraço J. Colin

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  5. Conheço (ainda) pouco do legado de Saramago, mas me arrepiou ver o filme Ensaio sobre a cegueira... em alguns momentos, confesso que saí da sala. Imagino o quanto o livro deve ser denso. Hora dessas me encho de coragem e leio. Belíssimo comentário, Clau, beijos e parabéns.
    Ler o Leio Enleio é sempre, e definitivamente, um deleite!
    Bjs!

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  6. Obrigada Marília. Não deixe de aparecer por aqui. Esta obra é realmente bastante densa. Um forte abraço.

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  7. Morre Saramago, mas sua obra fica.
    Beijo.

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  8. Pois é e o mundo está de luto por isso! Sorte que um pouquinho de sua genialidade ficou.

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