domingo, 11 de abril de 2010

Divertido, místico e sensual

Por causa dos livros infanto-juvenis de Jorge Amado resolvi que iria ler tudo o que pudesse do autor. Aqui em casa temos um grande número de obras deste escritor e, portanto, não custa nada começar. A única visão que tinha de sua bibliografia era a mostrada por filmes, minisséries e novelas (algumas adaptações eu nunca vi apenas sei que existem). Que visão era essa? Sexo, muito sexo, pelo menos era o que o público que nunca tinha lido Jorge Amado podia pensar. Talvez por isso me surpreendeu existirem três obras dedicadas ao público infanto-juvenil (duas delas já comentadas).

Ai, nas últimas férias, comecei a ler Dona Flor e seus dois maridos (Companhia das Letras). A trama é ambientada entre as décadas de 1930 e 1940.

Gostei muito do livro! O início é muito engraçado, aliás o tom de humor está presente em toda a obra, senti isso mesmo quando Vadinho morreu. Tem também o nome de dona Flor, que na minha cabeça era Flor mesmo, mas não é. O nome dela é Florípedes. Tá, tudo bem....
As receitas são de verdade (tem até um livro, escrito por Paloma Jorge Amado - filha do autor-, que traz as receitas das obras do escritor. O título é: Comida baiana de Jorge Amado) e dão água na boca, principalmente para quem conhece um pouquinho da culinária baiana. Tem também a sensualidade, própria das obras de Jorge Amado, mas é uma sensualidade que, para mim não é uma coisa assustadora, não é sexo explícito (vamos colocar assim) e era esta a visão que eu tinha.

Mas por baixo deste tom engraçado e sensual existem coisas muito sérias que nos são apresentadas. Coisas que pertencem a nossa sociedade mesmo setenta anos após o momento vivido pela trama. Tem preconceito, tem aquela preocupação de ‘o que os outros vão falar de mim’, tem a vontade de subir na escala social, tem a necessidade do casamento e tantas outras coisas. Ah, e, se prestar atenção, tem muita história, fala-se de Freud, de Dorival Caymmi (que é personagem do livro!). É um retrato da sociedade brasileira, não se restringe a Bahia.

O misticismo fica por conta da volta de Vadinho. Jorge Amado procurou especialistas na área para fazer com que a trama não parecesse loucura por quem conhece os mistérios do além. Nesse sentido não poderia faltar o Candomblé e a presença de Exu, orixá do escritor (vira e mexe se coloca para o leitor). Esta parte, misteriosa, normalmente me impressiona bastante, me dá medo mesmo, mas em Dona Flor a coisa acontece de uma maneira tão engraçada e surpreendente que esse medo não rondou minha leitura.

Na edição que eu li, quando a história termina, tem um texto da Zélia Gattai que conta como o autor mudou o fim da história: Primeiro a professora de culinária iria junto com o primeiro marido caso ele se fosse para sempre. Zélia conta que ficou triste com esta decisão. Mas durante a noite uma mudança inesperada e Jorge fala para a esposa: “Essa sua amiga, hein, dona Zélia... Revelou-se uma descarada!”. É Dona Flor não se “subjugou ao autor” diz a escritora...

Depois deste texto tem um posfácio de Roberto DaMatta. Maravilhoso! Ele lembra que se dona Flor tivesse escolhido um dos dois maridos e não os dois ela seria tão infeliz quanto outras heroínas e cita como exemplo Julieta. E entre mitos e ‘otras cositas mas’ DaMatta vai fazendo uma análise da obra que, principalmente para quem está iniciando a leitura de Jorge Amado, é bem proveitosa.

Ih, gente, acho que contei o final! Todo mundo diz para eu me controlar, mas as vezes não consigo.

4 comentários:

  1. Muito legal essa sua fase Jorge Amado. Tinha o mesmo problema que vc. Só conhecia o que as novelas e as minisséries retratavam. Nem tinha ideia da vastidão (em todos os sentidos) da obra dele. Ele não escrevia só sobre a Bahia... o Brasil tá ali.
    Depois de ler seu post fiquei com vontade de ler o Dona Flor. Ele tá paradinho na minha estante... coitado! Ficou carente. hehehehe
    Beijos

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  2. Ai, então pega ele com carinho e segue em frente! Engraçado como algumas interpretações podem nos fazer pré julgar as coisas. Um que estou doida para ler é Capitães de Areia, acho que vai ser o próximo. Beijos

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  3. Adorei, garota... minha próxima leitura será Jorge Amado. Hoje comecei "A Casa das sete mulheres", de Letícia Wierzchowski.
    Uma história fascinante ambientada nos pampas gaúchos e que originou a minissérie (com o acordo ortográfico ficou assim minissérie, né?)homônima da Globo.
    Beijos e continue nos brindando com tão oportunos comentários, "ratinha" de biblioteca.

    Marília.

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  4. Obrigada Marília. A dica é boa e está na minha lista. Neste momento estou entre os teóricos básicos e O dia do Curinga (assim que terminar comento aqui). Venha sempre que sentir vontade ou tiver tempo. Um abraço.

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