segunda-feira, 26 de abril de 2010

Primeiro o livro depois o filme

O menino do pijama listrado (Companhia das Letras): foi um dos livros que comprei pela capa. Aliás, este eu comprei dois: um para mim e um para minha amiga Maitê (http://www.pensoemtudo.com.br/) de aniversário. Não sabia do que se tratava, mas sinceramente achei a capa interessante e diferente. Demorei um pouco para ler porque, na época em 2008, estava numa correria profissional sem fim. A Maitê gostou do livro, mas acho que quis me matar quando descobriu o tema do enredo: a Segunda Guerra Mundial. Foi só com isso que eu descobri que ela tinha se prometido não mais ler ou ver nada que falasse sobre isso. O fato é que ela leu, gostou e depois que me disse eu fiquei louca para ler também. Na época ela comentou que estavam fazendo o filme. Aliás este foi um de uma série sobre Segunda Guerra e eventos paralelos que li (ver o post sobre A sombra do Vento).

O livro é realmente muito bom eu devorei as cento e noventa e duas páginas em poucos dias. Mas o que a obra tem de boa, tem de triste. Trata de um menino, Bruno, que se muda com a família (o pai é soldado alemão) para uma área afastada que mais tarde ele vai descobrir que é um campo de concentração. Lá ele conhece um menino que usa um pijama listrado com um número. Os dois estão separados por uma cerca que cruza a área onde Bruno mora. Em principio tudo parece um jogo, para o menino alemão, mas com o tempo o clima ingênuo vai saindo e dando lugar para uma atmosfera tensa, própria do período. Mesmo com todo mundo dizendo, por exemplo, que os judeus não são gente, Bruno descobre que do lado de lá da cerca estão pessoas boas e que foram retiradas de sua rotina, sua vida de maneira abrupta.

Além disso, existem coisas que aparecem em vários livros que tratam de crianças durante a Segunda Guerra (O diário de Anne Frank é outro exemplo disso). Aliás, se pensarmos em qualquer conflito e na relação da criança/jovem com o tema acabamos chegamos no tema: a necessidade da escola. A instituição de ensino, além do local em que se descobre assuntos que marcaram a humanidade, é o lugar em que há o relacionamento entre as crianças, aprendendo assim os conhecimentos práticos e teóricos de maneira lúdica e própria de cada idade.

Aí, em um fim de semana desses, fui à locadora e não é que encontrei a adaptação para o cinema? Não contei tempo e aluguei. Sempre achei bem complicado comparar a mesma obra em duas linguagens diferentes, mas quem sabe eu consiga fazer sem me expressar mal. O filme é lindo e obviamente triste, mas conhecendo a história acho que faltou um pouco da sutileza do livro, tudo acontece muito rápido. Em noventa e quatro minutos o diretor Mark Herman conseguiu colocar o resumo da obra, mas acho que faltou um pouco do clima e, reforçando, da sutileza nas descobertas de Bruno, que no filme é interpretado por Asa Butterfield. Mas é o que eu sempre digo: são linguagens diferentes e o livro nos dá a livre interpretação (que aliás o diretor do filme também tem a sua e colocou na obra que produziu).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O português que nos pariu

Esta semana temos um feriadinho. Vinte e um de abril, Dia de Tiradentes. Mas não é sobre esta data que quero falar. O livro de hje não tem nada a ver com Joaquim José da Silva Xaviér.

Em comemoração ao nosso aniversário. Quem lembra que 22 de abril é dia do aniversário do Brasil levanta a mão! O livro que quero comentar para lembrar todo mundo desse fato é O português que nos pariu (esse eu não comprei pela capa, foi pelo título mesmo). Lá vai:

Muito engraçado e, mesmo assim, altamente didático. São textos curtos que mostram de onde viemos com relações possíveis e nunca antes imaginadas. Como historiadores e pensadores deste país bem sabem nossos problemas atuais não começaram neste ou naquele governo já estavam presentes no nosso nascimento. Somos filhos de uma pátria desenvolvida (Portugal o era nos idos dos séculos XV e XVI), extremamente católica (por nada capitais como Salvador são cheias de igrejas) e que não queria ficar por aqui, o negócio era pegar o que interessava e se mandar

O português que nos apresentou ao mundo ‘civilizado’ está no livro O português que nos pariu (Editora Record). São vinte textos, escritos por Angela Dutra de Menezes, que nos mostram um pouco de quem nos ‘deu a luz’ oficialmente: o povo português. São textos extremamente didáticos, no sentido da linguagem fácil, compreensível, que podem tranquilamente ser utilizados em sala de aula ou, quem sabe, como referência bibliográfica de algum trabalho, mas é bom que se lembre que é o olhar de uma brasileira sobre os portugueses. Ah, e antes que eu esqueça, Angela Dutra de Menezes, além de escritora, é jornalista fato que, pela própria função do jornalista, provavelmente contribui para que a linguagem do livro corra de maneira solta.

Nestes textos a autora explica por exemplo as cores da nossa bandeira. O negócio, que é muito legal, é que ela não diz apenas que o verde é a cor da família Bragança e o amarelo da família Habsburgo, de onde vem D. Leopoldina (primeira esposa de D. Pedro I). Angela explica como a nossa dinastia surgiu, sempre lembrando passagens interessantes como o fato de, a partir de um determinado momento, os reis portugueses não usarem a coroa na cabeça, mas embaixo do braço (segundo eles a única com direito a usar a coroa era Nossa Senhora). Isso vai acontecer até D. Pedro I. Uma observação sobre este texto: no fim a autora dá um panorama geral do que está acontecendo com a nossa família real hoje, muito legal!

E tem muito mais: a necessidade de fazer o império crescer e por isso mesmo ‘misturar o sangue’, a sorte, ou azar, de Pedro Álvares Cabral, as questões religiosas, herdadas pelos brasileiro em vários sentidos: arquitetônico e sentimental, digamos assim. Então, quer conhecer a história do Brasil e de Portugal de maneira bem divertida, leiam este livro. São duzentas e quatro páginas que passam ‘num tapa’.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Li no Twitter e gostei

"Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas". (Mário Quintana)

O pequeno príncipe dos meus alunos

Olá pessoal. Os meus alunos do curso de Jornalismo da Satc (Criciúma) fizeram uma adaptação para o rádio da história do Pequeno Príncipe. Aqui está o link (eles colocaram imagens)

http://www.youtube.com/watch?v=JhzWzceGD38 Parte 1

http://www.youtube.com/watch?v=zszW0FaqS8M parte 3Valeu Elizangela pelos links!

domingo, 11 de abril de 2010

Divertido, místico e sensual

Por causa dos livros infanto-juvenis de Jorge Amado resolvi que iria ler tudo o que pudesse do autor. Aqui em casa temos um grande número de obras deste escritor e, portanto, não custa nada começar. A única visão que tinha de sua bibliografia era a mostrada por filmes, minisséries e novelas (algumas adaptações eu nunca vi apenas sei que existem). Que visão era essa? Sexo, muito sexo, pelo menos era o que o público que nunca tinha lido Jorge Amado podia pensar. Talvez por isso me surpreendeu existirem três obras dedicadas ao público infanto-juvenil (duas delas já comentadas).

Ai, nas últimas férias, comecei a ler Dona Flor e seus dois maridos (Companhia das Letras). A trama é ambientada entre as décadas de 1930 e 1940.

Gostei muito do livro! O início é muito engraçado, aliás o tom de humor está presente em toda a obra, senti isso mesmo quando Vadinho morreu. Tem também o nome de dona Flor, que na minha cabeça era Flor mesmo, mas não é. O nome dela é Florípedes. Tá, tudo bem....
As receitas são de verdade (tem até um livro, escrito por Paloma Jorge Amado - filha do autor-, que traz as receitas das obras do escritor. O título é: Comida baiana de Jorge Amado) e dão água na boca, principalmente para quem conhece um pouquinho da culinária baiana. Tem também a sensualidade, própria das obras de Jorge Amado, mas é uma sensualidade que, para mim não é uma coisa assustadora, não é sexo explícito (vamos colocar assim) e era esta a visão que eu tinha.

Mas por baixo deste tom engraçado e sensual existem coisas muito sérias que nos são apresentadas. Coisas que pertencem a nossa sociedade mesmo setenta anos após o momento vivido pela trama. Tem preconceito, tem aquela preocupação de ‘o que os outros vão falar de mim’, tem a vontade de subir na escala social, tem a necessidade do casamento e tantas outras coisas. Ah, e, se prestar atenção, tem muita história, fala-se de Freud, de Dorival Caymmi (que é personagem do livro!). É um retrato da sociedade brasileira, não se restringe a Bahia.

O misticismo fica por conta da volta de Vadinho. Jorge Amado procurou especialistas na área para fazer com que a trama não parecesse loucura por quem conhece os mistérios do além. Nesse sentido não poderia faltar o Candomblé e a presença de Exu, orixá do escritor (vira e mexe se coloca para o leitor). Esta parte, misteriosa, normalmente me impressiona bastante, me dá medo mesmo, mas em Dona Flor a coisa acontece de uma maneira tão engraçada e surpreendente que esse medo não rondou minha leitura.

Na edição que eu li, quando a história termina, tem um texto da Zélia Gattai que conta como o autor mudou o fim da história: Primeiro a professora de culinária iria junto com o primeiro marido caso ele se fosse para sempre. Zélia conta que ficou triste com esta decisão. Mas durante a noite uma mudança inesperada e Jorge fala para a esposa: “Essa sua amiga, hein, dona Zélia... Revelou-se uma descarada!”. É Dona Flor não se “subjugou ao autor” diz a escritora...

Depois deste texto tem um posfácio de Roberto DaMatta. Maravilhoso! Ele lembra que se dona Flor tivesse escolhido um dos dois maridos e não os dois ela seria tão infeliz quanto outras heroínas e cita como exemplo Julieta. E entre mitos e ‘otras cositas mas’ DaMatta vai fazendo uma análise da obra que, principalmente para quem está iniciando a leitura de Jorge Amado, é bem proveitosa.

Ih, gente, acho que contei o final! Todo mundo diz para eu me controlar, mas as vezes não consigo.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

JORGE AMADO PARA MENORES

O dia nacional do livro infantil é só no dia 18 de abril, mas estava louca para colocar este post. Adorei estes livros e, claro, recomendo.

No post anterior falei sobre o O pequeno príncipe. Logo em seguida escrevi este, por isso começa desta forma:


Saindo dos autores internacionais em 2009 passei pelos nacionais também. Afinal de contas a literatura infantil brasileira é muito boa. Li O gato Malhado e a andorinha Sinhá (Companhia das Letrinhas), de Jorge Amado. Sim, ele tem obras dedicadas aos pequenos (na última viagem para a Bahia descobri que são três. Tem também A Ratinha Branca de Pé-de-Vento e A Bagagem de Otália, também da Companhia das Letrinhas, e que ainda não está na minha prateleira) ou, como disse Tatiana Belinky no posfácio do livro “para crianças excepcionalmente inteligentes de todas as idades”. O livro foi escrito para o seu filho, João Jorge, quando este tinha um ano de idade e o autor baiano não queria que fosse publicado. O pequeno encontrou os escritos do pai anos mais tarde. Organizou e pediu para o artista plástico e amigo da família Carybé ilustrar. Depois de convencer o pai o livro foi publicado. Adorei ter lido este livro por uma série de motivos: 1) Trata de um amor impossível, quase um Romeu e Julieta dos bichos e no meio disso tudo fala de amor, preconceito, respeito as diferenças e educação. Como todo livro infantil de maneira muito fantasiosa; 2) Tem palavras diferentes que podem melhorar e muito o vocabulário de crianças e adultos; 3) Descobri, no texto de João Jorge, depois do posfácil, que a Zélia Gatai herdou da mãe, Angelina (coincidência, nome da minha bisavó), o hábito de guardar tudo (e isso se parece muito comigo!) e foi por conta desta mania que o livro ficou guardado e foi encontrado por João Jorge: “quem tem, procura e acha”, palavras de dona Angelina (a sogra de Jorge Amado). Aliás, no texto que João Jorge escreveu aparecem raridades como a certidão de batismo dele. O batizado foi feito em um quarto de hotel de Paris no dia 8 de maio de 1949, além da certidão tem também um desenho que registra a noite em que a cerimônia aconteceu. Estou louca para contar esta historinha para o meu pequeno!

A história foi escrita em Paris, em 1948. A primeira edição foi publicada em 1976. Acho que todos os livros de Jorge Amado devem ser assim: envolventes. Não dá vontade de parar de ler O gato Malhado e a andorinha Sinhá. Deve ser por isso que Jorge Amado foi durante muito tempo o escritor brasileiro mais lido no exterior, membro da Academia Brasileira de Letras... uma referência.

Nunca havia lido Jorge Amado. Suas histórias eu só conhecia das adaptações para a televisão. Este livro chegou em nossas prateleiras porque meu marido, baiano e apaixonado por literatura, resolveu fazer a coleção de Jorge Amado (temos até uma lista, olha elas novamente em minha vida, para não correr o risco de comprar repetidas). Ela não estava a venda nas bancas mas sempre que encontrava uma obra do conterrâneo ele comprava. E ai encontrou as duas raridades para o público menor.

Pois é, eu disse que Jorge Amado tem duas obras para o público infanto-juvenil. O outro é A bola e o goleiro (Companhia das Letrinhas). Que já está devidamente lido. Este é mais um caso de amor impossível: a bola se apaixona pelo goleiro e vice-versa. Ele é divertido e envolvente (estou me repetindo). E além de uma série de valores que traz, que eu nem sei se o autor queria passar mesmo (pode ser coisa da minha cabeça!) ele fala da relação de carinho que a maioria dos brasileiros tem por este objeto sem lados que é a bola. Em ano de Copa do Mundo (eu li em 2009, mas este texto está sendo escrito em 2010 = Copa da África do Sul) essa paixão fica mais acesa, digamos assim. Tempos atrás eu diria que o brasileiro é apaixonado somente pela bola de futebol, hoje já posso dizer que, apesar de ser ainda campeão, a bola de futebol ganhou companheiros como o vôlei e o basquete. O goleiro, bem o goleiro pode ser um ser iluminado ou não. Depende do time em que se joga ele pode estar apaixonado pela bola ou não.

Muito provavelmente foi a paixão pelo futebol que fez Jorge Amado escrever um texto tão legal sobre esta paixão entre a bola Fura-Redes e o goleiro Cerca-Frango. Ah, os desenhos são de Kiko Farkas e são muito legais e divertidos!

Depois de tantos livros infantis resolvi ler Jorge Amado para adultos, mas esta é uma outra história.